
Miss K® - O casamento arranjado é um casamento em que a iniciativa de selar a união não parte dos noivos, e sim de seus pais, ou outra pessoa responsável.
Para a maioria dos ocidentais é díficil acreditar que um casamento feito dessa forma possa dar certo.
Mas e vocês, são a favor do casamento arranjado?
Vocês acreditam que um casamento desse tipo pode dar certo?
Penso que em alguns casos pode dar certo quando os noivos em questão estão de acordo e querem realmente, mas e quando (o que geralmente é) imposto aos filhos?
E quanto à questão do filho mais velho ter a obrigação de casar-se primeiro?
As dúvidas e questionamentos são muito e espero poder compartilhar aqui neste espaço muitas idéias.
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O casamento arranjado é um costume que data já dentre as primeiras tribos humanas.
Prática muito comum no passado recente, era feita muitas vezes por motivos políticos ou financeiros dos pais. É comum na história, ocasiões onde reis casavam seus filhos com filhas de nobres vizinhos, ou até mesmo de um inimigo, para celebrar uma alianças entres os reinos.
O casamento arranjado persiste até hoje em algumas sociedades, notadamente na Índia e em paízes de regiões adjacentes. Atualmente as expressões love marriage (casamento por amor) e self-arranged marriage (casamento auto-arranjado, quiçás uma expressão socialmente menos confrontacional e, daí, menos estigmatizante), utilizadas na língua inglesa mesmo, são reconhecidas praticamente pela maioria das pessoas, dada a modernização progressiva da sociedade indiana.
Noivos se encontram pela primeira vez no altar
Cornetas e tambores emitem sons que lembram antigos coretos do interior do Brasil. Varanasi é a cidade sagrada dos hindus. No fim do cortejo, um carro todo enfeitado com flores. E dentro dele vem um noivo ansioso. Acompanhamos os rituais de um casamento indiano, um dos momentos mais bonitos e importantes na vida dessa gente tão ligada às tradições.
Tradições que nos levam até ao altar. Na Índia, os visitantes devem ser tratados como divindades. Nós fomos surpreendidos com um pedido: queriam que acendêssemos uma vela no templo montado para o casamento. E depois, na testa, uma tintura avermelhada. Marca de respeito e boas-vindas.
Nós pedimos autorização para gravar as imagens do casamento. E eles nos deram a honra de iniciar a cerimônia. A vela significa a chama para iniciar todo o ritual do casamento.
A noiva finalmente aparece amparada pelas mulheres da família. Às vezes, jóias e vestido pesam mais que a própria moça. Neste país, o noivo e a noiva parecem rei e rainha.
A Índia é uma nação de 1,1 bilhão de habitantes no sudoeste da Ásia. Uma das civilizações mais antigas do mundo. País de cidades fortificadas e castelos de antigos marajás. Construções imponentes dos reinos que deram origem às Índias.
Palácios parecem flutuar sobre a água. Monumentos da arquitetura que guardavam belas princesas. Uma construção foi feita especialmente para que elas pudessem observar a rua sem que ninguém as visse. É o Palácio dos Ventos. Dá até para entender que, no país, noivo e noiva parecem reis.
Mas a maior surpresa ainda estava para ser revelada. Esse é o tipo de casamento que dificilmente seria realizado no Brasil. A noiva e o noivo não se conhecem. É um casamento arranjado entre as famílias. E chegou o grande momento: ela vai para o altar, onde vai encontrar o noivo pela primeira vez. O noivo espera, sentado na primeira fila. Ela passa sem virar o rosto. Ele lança apenas um olhar tímido, contido. É o começo de uma cerimônia que pode durar até sete horas. Os convidados precisam de muita paciência. Mas já almoçaram e, depois de tudo, ainda tem um farto jantar.
Na troca de guirlandas, eles dão boas-vindas um ao outro em suas vidas. Mas para chegar até o altar, os dois pouco fizeram. A busca do par ideal para os filhos cabe aos pais.
É só dar uma olhada nos classificados dos jornais. Nos anúncios, os pais oferecem os filhos e as filhas. Informam idade, formação e algo ainda muito importante para a maioria dos indianos: a casta.
Há milhares de anos a sociedade indiana é dividida em castas. Um sistema que separa as pessoas em classes, de acordo com a profissão e a origem social. Segundo a lenda, a Humanidade teve origem do corpo de um deus. Da cabeça (Brâmanes), surgiram os intelectuais e sacerdotes. Dos braços (Xátrias), os guerreiros e donos de terras. Das pernas (Vaixás), os empresários e comerciantes. E dos pés (Sudras), os serviçais.
Hoje são mais de três mil castas, como se cada atividade fosse de responsabilidade de uma família. Quando as castas começaram, eram simplesmente uma forma de divisão do trabalho. Mais tarde, cada família ficou responsável por uma profissão: leiteiro, joalheiro, agricultor. Mas a população indiana cresceu, foi para as cidades e hoje não dá para ter certeza de qual casta alguém é só pelo trabalho que realiza.
O noivo que acaba de conhecer a futura mulher é um exemplo. Prakash é de uma casta – uma família – de fazendeiros, mas decidiu ser bancário. A moça, Kavita, é de uma casta de serviçais. Casamento arranjado como a maioria no país. Mas entre castas diferentes é uma raridade na Índia. Na maioria das vezes, noivo e noiva são da mesma casta.
A dona de casa Seema Upadhyaya e o empresário Ganesh John Upadhyaya tinham tudo para dar certo. Os dois são brâmanes, da casta dos intelectuais. Um amigo se encarregou de arranjar o casamento junto às famílias, mas Seema tomou uma atitude incomum.
"Eu tinha ouvido dizer que John era muito namorador. Estava assustada. E se eu casasse e ele não fosse fiel? Mas a minha família pressionou muito. Meu pai faleceu, não tínhamos dinheiro, e eu teria que casar com John", conta Seema.
Aos poucos, Seema foi descobrindo que o menino dentuço tinha um grande coração. Na família dele, as mulheres eram tratadas com respeito.
"Eu vi meu pai cuidar da minha mãe. Cresci nesse tipo de família. Para mim, é muito natural tomar conta da pessoa que você ama", diz John, que teve uma formação mais moderna e chegou a estudar nos Estados Unidos.
Mas na casa de Seema não era bem assim. A mãe e o irmão pressionavam muito a menina porque o casamento arranjado iria servir para melhorar a situação financeira da família. Por obra do destino, Seema acabou se apaixonando por John. Mas a história de amor tinha outro obstáculo pela frente.
"A maior dificuldade foi que a irmã mais velha de Seema ainda não tinha se casado. É a hierarquia indiana: o mais velho tem que se casar primeiro", conta John.
Tantas regras e tanto sofrimento. Mesmo prometidos um para o outro, não podiam se casar. Três anos passaram até que Seema não aguentou mais. Emocionada, lembra o dia em que fugiu e se escondeu na casa do futuro marido, quebrando todas as normas da tradição.
"Eu disse para a minha mãe para meu irmão que não tentassem impedir porque eu iria me casar com ele", lembra Seema.
O casamento acabou saindo às pressas. O casal feliz é um exemplo raro. A maioria dos indianos não acredita em casamentos por amor. Acham que não dão certo. Nem mesmo a administradora Kanupriya Mathur e o agente de viagens Nitin Mathur. Ela é de uma casta de empresários. Ele, de uma casta de jornalistas. Se conheceram trabalhando em um hotel de luxo. O pai dela pensou: “Casta de jornalistas? Ele não vai ter dinheiro para dar uma vida boa a minha filha”.
"O problema era que a gente vinha de classes totalmente diferentes. Eles queriam que ela se casasse com alguém de uma casta de homens de negócios. Queriam mais dinheiro. O futuro dela estaria assegurado", diz Nitin.
Quando se casam, as moças passam a fazer parte da família do noivo, têm obrigação de cuidar dos idosos da família para o resto da vida, além de cuidar das tarefas da casa. Talvez por isso, tamanha preocupação. O casamento é muitas vezes o momento de despedida de uma filha querida.
"Os pais dela vieram até a minha casa para saber se eu era um bom rapaz, se tinha uma família decente. Conversaram com os vizinhos. Eles tinham uma lista de perguntas sobre mim e minha família. E depois, finalmente, deram o consentimento", conta Nitin.
Mas eles teriam que passar por um teste final antes do casamento para provar que o amor deles não era fogo de palha.
"Nós não nos vimos durante seis meses antes do noivado. Depois do noivado, não nos encontramos por mais seis meses. Isso foi para termos certeza de que gostávamos um do outro e queríamos mesmo ficar juntos", diz Kanupriya.
Eles passaram no teste. O amor foi mais forte. E o casamento, como sempre na Índia, uma grande festa.
No casamento, os rituais se sucedem. Os pés quase se tocam. E assim, pela crença, começa a troca de energia entre os noivos. Juram a união sete vezes em volta do fogo. E com as mãos sobre as cabeças se comprometem um com o outro na alegria e na tristeza. Prakash e Kavita fazem finalmente o último gesto: passam pó sagrado na testa um do outro. Até pouco tempo, eles nem se conheciam. Agora, estão ligados para sempre. E por uma noite são rei e rainha. Uma linda cerimônia, mas sem demonstração de carinho. Sentimos falta de um beijo.
Francisco José (Varanasi, Índia)
Arranged Marriage - Funny Commercial
Dica de leitura: Noiva Prometida de Bapsi Sidhawa

"Bapsi Sidhawa tem aqui a sua estreia no campo da literatura e logo com um texto onde expõe a amargura das tradições patriarcais indianas e paquistanesas, países vizinhos mas tão iguais nas tradições, separados apenas pela vertente religiosa.
E é esse aspecto o primeiro que Sidhawa explora quando aborda, num gênero de intróito para as situações vindouras, dos terríveis acontecimentos de 1947 quando as terras férteis do Punjabe foram subitamente divididas entre o Paquistão e a índia, provocando uma enorme deslocação de refugiados que iam sendo apanhados em emboscadas que acabavam numa enorme chacina.
É assim que Qasim, homem das montanhas há muito emigrado nas planícies (e existe uma enorme diferença entre aqueles que habitam na montanha e aqueles que são das planícies) adopta uma órfã de 5 anos que encontra perdida após os seus pais terem sido mortos por guerrilheiros.
Inicia-se aí um périplo onde as tradições e mentalidades demonstram que a condição da mulher nesses países é inferior ao de qualquer animal, onde a mesma é negociada e trocada por vacas, ovelhas e dívidas monetárias, onde a honra masculina se lava apenas com sangue, independentemente do grau familiar, homem que toque em mulher alheia… já era.
Num espaço árido e perdido no tempo, no meio de nenhures, sentimos o quanto o ocidente se afastou daquelas mentalidades, o quanto estranho é para nós aquelas tradições que pouco evoluíram desde o paleolítico e é precisamente isso que nos choca, que nos faz pensar que por muitos vícios que o ocidente tenha, sempre é melhor viver no ocidente do que num país ou comunidade onde a humanidade não existe.
A escrita de Sidhawa está carregada de simbolismo numa clara tentativa de gritar ao mundo aqueles estranhos e desconhecidos costumes que escravizam todas as mulheres e as sujeitam aos caprichos dos maridos, sem qualquer apelo nem misericórdia".
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