quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A classe média não quer ser rica - Palavras de um economista indiano

Posted by Miss K. 1/21/2009, under ,,, | No comments


Abhijit Banerjee - “A classe média não quer ser rica”


Reportagem : Rafael Pereira


Para o economista indiano, o sonho da “nova classe média” mundial é que os filhos não voltem à pobreza


Como você definiria o padrão de vida de uma pessoa que pertence à “classe média”? Ela paga os estudos dos filhos até a faculdade? Tem plano de saúde e viaja de vez em quando com a família para a praia? A frieza dos números mostra uma realidade diferente. “Essas são características dos ricos, quando se analisa a distribuição de renda nos países pobres ou em desenvolvimento, como é o caso do Brasil”, afirma o economista indiano Abhijit Banerjee, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Banerjee publicou em 2007 os resultados de uma pesquisa feita em 17 países da América Latina, África e Ásia, como China e Índia. O trabalho revelou quem são e o que fazem os integrantes da “nova classe média” mundial, aqueles que acabaram de ultrapassar os limites da pobreza.


Em geral, seus integrantes não têm perfil empreendedor, recebem salários baixos e só investem na casa e na educação dos filhos. De passagem pelo Brasil, Banerjee falou a ÉPOCA sobre os sonhos da “nova classe média” e as formas mais eficazes para reduzir a pobreza no mundo.


ÉPOCA – O senhor estudou 17 países para definir a “nova classe média” mundial. Quem são seus integrantes?


Abhijit Banerjee – A nova classe média, como nós a definimos, é feita de pessoas que vivem com uma renda diária que vai de US$ 2 a US$ 10. Pode parecer pouco, mas em países como Índia, Tanzânia e Paquistão quem vive com US$ 10 ganha mais que 80% da população – e muito pouca gente ganha mais que isso. Se a “verdadeira” classe média fosse de pessoas que ganham US$ 10 ao dia, então a idéia de que a classe média estaria no centro da distribuição de renda de um país seria descartada. Com o corte que fizemos, estamos falando numa população com renda superior à dos 20% mais pobres e inferior à dos 20% mais ricos.


ÉPOCA – Qual é o perfil dos integrantes da “nova classe média” mundial?


Banerjee – Em termos gerais, a nova classe média investe na família, e não em negócios. Eles têm empregos urbanos estáveis, com salário fixo. Não são bem pagos. Ganham o suficiente para garantir a educação dos filhos e pagar um tratamento de saúde para os pais. Seriam, por exemplo, um garçom de um bom restaurante na Índia ou um operário em uma grande fábrica chinesa. Esse seria um membro típico da nova classe média. Apenas uma pequena parte mantém o próprio negócio, como um bar ou uma mercearia. Normalmente, não empregam ninguém, a não ser os familiares. Nesse caso, parecem ter um negócio próprio, mas na prática são como um encanador, alguém que trabalha por conta própria. É uma classe que cresceu muito no Brasil nos anos 1960, vem crescendo rapidamente na China e de maneira mais lenta na Índia.


ÉPOCA – Cem milhões de brasileiros pertencem à “nova classe média”. Quais serão os efeitos da crise mundial sobre eles?


Banerjee – O perigo é a queda na criação de empregos. Fábricas vão demitir e restaurantes fecharão, para continuar com os exemplos do garçom e do operário. A criação ou manutenção desses empregos depende diretamente da demanda por bens e serviços, e essa demanda está encolhendo. Mas os maiores efeitos da crise se abaterão sobre os ricos. Apesar disso, não seria certo dizer que os ricos são os mais vulneráveis, porque eles não precisarão tirar os filhos da escola caso algo dê errado em seus negócios. Já os muito pobres, dependendo da forma como seus países lidem com a crise, poderão ser os mais beneficiados no curto prazo. A China vai combater a crise investindo em infra-estrutura, criando mais empregos para os mais pobres.


ÉPOCA – Quais são os sonhos que definem a “nova classe média”?


Banerjee – Seu sonho é manter seu status e pagar as contas em dia. Ter uma TV e um veículo, que seria um carro compacto no Brasil e uma boa bicicleta na Índia. E dinheiro para gastar com os problemas mais comuns de saúde.


ÉPOCA – Contentar-se apenas com o necessário não é negar a esperança?


Banerjee – Para a nova classe média, isso já é um sonho. São pessoas cujos pais viviam de bico e saíram da margem da pobreza. Agora, a nova classe média precisa educar seus filhos para que eles mantenham o conforto de hoje. Muitas vezes, quem pertence hoje à nova classe média foi o único entre os irmãos que conseguiu se estabelecer. Pense do ponto de vista de um pobre. Esse é o sonho dos pobres. O novo membro da classe média luta para assegurar sua condição e para que todos os seus descendentes sejam como ele. Esse é o desafio.


ÉPOCA – A “nova classe média” ainda tem tantos filhos quanto seus pais?


Banerjee – A classe média tem muito menos filhos que os pobres, e isso é uma característica fundamental. É um dado em comum em todos os países que estudamos. Tem a ver com o desafio de investir nas próximas gerações. Não para que os filhos sejam ricos um dia, mas para que nunca se tornem pobres. Os pais querem assegurar aos filhos um emprego como o deles. Quanto menos filhos, mais fácil é assegurar esse futuro.


ÉPOCA – Até onde vai a educação dos filhos? Eles chegam à faculdade?


Banerjee – Tipicamente, eles estudam até completar o ensino médio, em colégios públicos, mas não chegam à faculdade. É claro que há exceções, mas de maneira geral é o que ocorre. A intenção é que os filhos estudem, aprendam uma profissão e consigam um emprego.


ÉPOCA – Os membros da “nova classe média” brasileira não se vêem como pertencendo a ela, mas como pobres. O mesmo ocorre com a classe média “tradicional”. Eles não se vêem como ricos.



Fonte:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI19849-15295-2,00-ABHIJIT+BANERJEE+A+CLASSE+MEDIA+NAO+QUER+SER+RICA.html

0 Comentários:

Tags

Postagens populares

Marcadores

Blog Archive

Blog Archive