"Meus pais têm medo de que eu não sobre nenhum indiano bom para mim"
Mona Shah, 24 anos
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"Meus pais querem que eu seja feliz e eu quero agradá-los, mas só estamos conseguindo magoar uns aos outros"
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Meus pais me deixavam ver muita TV, mas eu nunca podia ir dormir ou comer na casa de uma amiga. Eram superprotetores, mas tentavam se adaptar. Quando eu tinha 9 anos, papai foi dançar quadrilha comigo na escola. Todo mundo tinha que levar comida. Todas levaram McDonald’s, mas eu levei comida indiana - pão sem fermento e curry. Fiquei envergonhada.
Minha mãe tinha cursado Direito na Índia, e minha família também queria que eu estudasse para ter uma boa profissão. Estudei na Universidade de Michigan e agora trabalho com relações públicas. Sei que meus pais ficariam muito felizes se um dia eu abrisse meu próprio negócio. Mas, para eles, a família é a coisa mais importante na vida. Eu sempre soube que eles querem escolher meu marido. Não para me controlar, mas para ter certeza de que eu vou ficar com o melhor, preferivelmente alguém de uma casta mais alta que a nossa, como um brâmane ou um mercador. Nós pertencemos à casta dos fazendeiros.
Eu digo a meus pais que quero me sentir nas nuvens e viver todas aquelas coisas que estão nas músicas. Mas eles falam que, se eu me apaixonar, provavelmente vou terminar divorciada. E que, se não me casar antes dos 25, vou ficar para titia.
Minhas amigas começaram a ter namorados no colegial, mas eu só saía em grupo. Na faculdade tive um namorado americano, que meus pais simplesmente ignoravam. Eles acreditam que eu nunca vou me envolver seriamente com alguém que não seja indiano. Não posso levar um rapaz branco à casa dos meus pais, a menos que queira matar minha mãe ou ser morta por ela.
Meus pais não vão me forçar a casar com alguém de quem eu não goste, mas eles querem muito que eu escolha alguém o mais rápido possível. Já conheci três dos candidatos deles. Recentemente meus pais deram uma festa para me apresentar ao que parecia ser toda a comunidade indiana de Los Angeles. O objetivo era que seus amigos me conhecessem para ver quais dos seus filhos ou sobrinhos combinam comigo. Eu me senti muito mal, como um cachorro que é avaliado para cruzar.
Visitei a Índia há alguns anos e fui a um casamento. Foi uma experiência muito forte, fiquei muito impressionada com os costumes, os ritos. O noivo vai até a casa da noiva, pega a moça e coloca uma grinalda de rosas na cabeça dela. Ela faz o mesmo com ele. Só a cerimônia demora três horas e acontece sob uma estrutura montada especialmente para o casamento. É uma bela tradição, mas tem muitas outras coisas por trás - como, por exemplo, estar 100% comprometida com alguém pelo resto da vida. Não tenho certeza se a cerimônia e tudo o que ela significa é o que eu quero.
Amo e respeito muito meus pais. Eles querem que eu seja feliz e eu quero agradá-los, mas por enquanto só estamos conseguindo magoar uns aos outros. Eles têm medo de me pressionar muito, que eu me revolte. Mas também têm medo de que não sobre nenhum homem indiano bom para mim. Minha vida é um choque cultural. Não sei se concordo com um casamento arranjado, me sinto muito jovem para assumir esse compromisso. Estou muito confusa."
"Passei a noite de núpcias trancada no banheiro"
Maria Vasilarkis, 38 anos
A maioria das crianças com quem eu brinquei em Kárpathos, na Grécia, foi forçada a se casar com quem a família queria. Mas nunca achei que isso aconteceria comigo. Eu não queria me casar. Queria ser cantora. Quando tinha 14 anos, minha família se mudou para uma comunidade grego-ortodoxa em Baltimore. Na Grécia nós não tínhamos eletricidade, nem TV. De repente, apesar de eu mal conseguir dizer ‘oi’ em inglês, já estava indo para a escola e sendo exposta a todas essas coisas maravilhosas do Ocidente. Um dia, em um festival grego, minha mãe me viu conversando com um cara. Bastou para que ela achasse que eu estava louca para arrumar um namorado e decidiu que, se não arrumasse logo um marido para mim, eu desgraçaria minha vida.
Ela conhecia uma mulher que morava em Nova York com o filho. Ele tinha 21 anos e era garçom. Meus pais foram até lá arranjar o casamento. Meu pai não gostou do meu futuro noivo, disse isso a minha mãe, mas ela não ligou. Conheci meu marido seis dias antes da cerimônia. Lembro cada detalhe do pesadelo do casamento e da lua-de-mel. Como só dois Estados dos EUA permitem que menores se casem, nossas famílias e algumas pessoas da comunidade viajaram até a Carolina do Sul para o civil. No fim, a juíza disse: ‘Pode beijar a noiva’. Nós dois estávamos tão envergonhados que nem conseguíamos olhar um na cara do outro. Voltamos para Baltimore, para o religioso. E, seguindo a tradição, eu fui depois para a casa dos meus pais.
No dia seguinte, meu pai levou Emanual, meu marido, e eu para um hotel. Quase pulei de alegria quando chegamos no quarto: tinha duas camas de solteiro. Meu pai me deu um beijo de despedida e saiu. Então um gerente chegou e disse: ‘Demos a vocês o quarto errado’, e nos levou a outro, com cama de casal. Fiquei trancada no banheiro a noite toda. Emanual não sabia o que fazer, ele era quase tão inocente quanto eu em matéria de sexo. De manhã, meu pai foi nos buscar e fomos morar com minha família. Bom, levou um mês até a gente transar, e mesmo assim eu me senti como se estivesse dormindo com um estranho. Sempre me senti assim.
Logo depois do casamento, parei de menstruar. Mas ninguém me explicou que aquilo significava que eu estava grávida. Quando contei a minha mãe, ela me disse que eu ia ter um bebê. Precisei largar a escola, eu só tinha 14 anos quando Sophia nasceu. Eu me sentia humilhada vendo as outras crianças brincar. Morria de vontade de me juntar a elas, mas precisava limpar a casa e cozinhar. Minha infância foi roubada. A vida na comunidade grego-ortodoxa era muito fechada. Depois que tive minha filha, meu único contato com o mundo exterior era aos sábados, quando minha mãe, minha irmã, minha tia e eu íamos ao McDonald’s. Aquilo era a coisa mais especial da minha vida.
Meu maior desejo era voltar a estudar, mas, quando Sophia estava maiorzinha e já não precisava tanto de mim, eu tive que ir trabalhar em uma fábrica de roupas com minha mãe. Meu marido trabalhava à noite em um restaurante. Ele não era um homem mau. Era bonito e decente e, se não tivéssemos sido forçados a ficar juntos, talvez eu até o tivesse amado. Quando eu via um casal apaixonado, sentia inveja. Eu pedia a Emanual: ‘Por que você nunca me traz flores? Será que a gente não poderia fazer um programa romântico?’ Mas não, a única coisa que fazíamos juntos era ir ao baile da comunidade, que só acontecia duas vezes por ano. Meu marido era o único homem que eu tinha visto, e eu era curiosa: de vez em quando, eu ia em uma loja de conveniência e ficava olhando a revista ‘Playgirl’.
Meu pai morreu em 1983. Eu já tinha minha segunda filha, Kaliopi, e nós quatro continuávamos morando com minha mãe. Em 1989, finalmente conseguimos ir morar na nossa própria casa. Foi emocionante. Eu fazia as compras e levava as meninas de um lado para o outro. Lembro o dia em que Sophia viu uma briga horrível entre Emanual e eu. Ela me disse: ‘Não entendo por que você não se separa dele. Ele não é um marido de verdade’.
Quando eu tinha 28 anos, me senti muito atraída por um homem da fábrica onde eu trabalhava. Avisei meu marido: ‘Você tem que começar a cuidar de nós, ou eu vou procurar outro’. Ele riu. Na nossa comunidade, homens podem ir beber toda noite e ter casos extraconjugais que ninguém pisca. Mas mulheres não. Eu levei o caso adiante e contei a Emanual. Ele contou para a mãe dele e logo todo mundo ficou sabendo. Tivemos uma reunião familiar. Eu disse a minha mãe: ‘Você me forçou a isso. Você me deu esse homem. Agora tem que mandar ele embora’.
Ela não aceitou. Não ligava para a minha felicidade, só pensava no que os outros iam dizer. Meu marido não queria tentar consertar o casamento nem saía de casa. Acabei descobrindo, por acaso, que ele estava planejando levar nossa caçula para a Grécia. Tivemos outra briga horrível e ele me bateu. Chamei a polícia.
A essa altura - era 1991 -, ele também não agüentava mais o casamento e voltou para a Grécia. Paguei a passagem. Andei os cinco quarteirões que separavam a minha casa e a da minha mãe e disse: ‘Quero ser sua amiga’. Ela fechou a porta na minha cara. Até hoje ela não fala comigo. Eu visito o túmulo do meu pai e peço desculpa. Mas desculpa de quê? Eu só queria uma vida normal para mim e para as minhas filhas.
Não me casei de novo, mas estou saindo com alguém. Continuo na comunidade, mas ainda sou uma pária. E, apesar de ter uma família enorme, estou sempre sozinha nas festas de fim de ano. Eu não menti, não roubei, não matei. Mas o simples fato de ser divorciada faz com que minha família me trate mal. Só que essas são minhas raízes, esse é meu lar, agora e sempre. Sinto falta até do meu ex-marido. Disse para as minhas filhas: ‘A menos que vocês escolham um homem que bebe, se droga ou um criminoso, eu não vou me meter. Não sou eu quem vai para a cama com ele’. Acho que é minha missão tentar convencer pais a não forçarem seus filhos a se casarem com estranhos. Espero que minha experiência ensine a eles que casamentos arranjados podem destruir vidas."
"Fui salva da estressante experiência de namorar"
Esther Leib, 25 anos
Eu sempre soube que ia me casar com alguém apresentado por um parente, mas também sabia que tinha a opção de recusar se não gostasse do candidato. Na tradição lubavitch (comunidade de judeus hassídico), se uma pessoa próxima sente que você pode ser compatível com alguém, ela liga para os pais desse alguém. Foi assim que meu irmão sugeriu que eu conhecesse Lerner. Claro, meus pais investigaram tudo sobre ele: personalidade, objetivos, passatempos etc. Esse ‘trabalho’ ajuda a diminuir as possibilidades de tudo dar errado. Por exemplo, eu sou caseira, então não queria me casar com alguém que adora sair.
Meu primeiro encontro com Lerner foi o primeiro da minha vida. Eu dividia um apartamento em uma comunidade hassídica lubavitch superunida do Brooklyn, em Nova York. Como eu sabia que todo mundo ia querer ver o momento em que eu e Lerner trocássemos o primeiro olhar, achei melhor ele não ir me buscar em casa. Um parente me levou ao encontro. Lerner chegou de carro e eu entrei. Sentia frio na barriga. Eu rezava para ele ser o homem da minha vida e eu não ter que passar por aquilo nunca mais.
Na verdade, nem olhei direito para o meu parceiro até chegarmos a nosso destino - o hotel Waldorf Astoria. Achei que Lerner tinha uma aparência decente, mas não senti nenhuma emoção especial a não ser acanhamento. O nosso foi um encontro muito objetivo. Sentamos no lobby e conversamos. Não iríamos ao cinema; estávamos nos concentrando em descobrir se gostaríamos de nos casar. No fim eu disse algo como: ‘Boa noite. Eu entro em contato com você’.
No segundo encontro nós já estávamos falando sobre casamento. No terceiro ou no quarto, já estava decidido. Ele me pediu em casamento e ficamos noivos durante quatro meses. Eu tinha as mesmas dúvidas de qualquer outra garota: ‘Ai, não. No que estou me metendo?’ Antes do casamento, nós não podíamos ficar sozinhos em um lugar trancado nem nos beijar, claro.
Tínhamos que estudar o ‘Halachah’ - as leis que dizem como marido e mulher devem se comportar quando estão juntos. Por exemplo, tem duas semanas perto do período menstrual em que a mulher não pode beijar ou abraçar o marido, só pode conversar com ele.
Os lubavitch acreditam que, 40 dias antes de uma criança nascer, Deus decreta com quem essa pessoa vai se casar. O dia do casamento, quando as duas almas finalmente se unem, é muito espiritual. Você faz jejum desde a hora em que acorda até mais ou menos as sete da noite. Eu passei a manhã e a tarde refletindo sobre a minha vida. Mas também tive um cabeleireiro para me maquiar e me pentear. Meu vestido de noiva tinha uma saia bem volumosa e um corpete apertado.
A noite de núpcias foi a primeira vez para nós dois. Também foi a primeira vez em que nos beijamos. Estávamos nervosos, não sabíamos o que fazer. Mas Deus criou as pessoas para que elas consigam descobrir o que têm que fazer, e nós conseguimos. Tudo normal.
Minha atração física por Lerner cresceu, assim como minha atração emocional. Tivemos que nos acostumar com muito mais coisas do que acontece com quem se casa por amor. Mas agora somos iguais a qualquer outro casal. Brigamos de vez em quando, às vezes ele me traz flores. Quando começo uma frase, ele termina. Ele me apoiou muito nas três vezes em que fiquei grávida. Sempre me ligava do templo - Lerner é rabino - para ver se eu precisava de algo. Ele varria o chão, me levava para jantar. Também ficou ao meu lado no parto - apesar de sair do quarto e esperar atrás de uma cortina na hora do nascimento.
As pessoas pensam que o estilo de vida dos lubavitch é restritivo. Não é assim. Minha cabeça não é raspada, mas mantenho meu cabelo curto sob uma peruca. Só meu marido pode ver meu cabelo, porque é uma característica muito feminina e atraente. Eu também uso mangas compridas, mas não é para me esconder. Eu não tenho vergonha. Modéstia é uma coisa espiritual. Algumas coisas são reservadas somente para meu marido e eu.
Apesar de eu nunca ter saído com um namorado ‘para me divertir’, não acho que tenha perdido muito. Sinto como se tivesse sido salva da estressante experiência de namorar. Se meus filhos terão casamentos arranjados? Por que não? Funcionou para nós."
Por Sherry Amatenstein, da MC America/Tradução: Ana Ban
Fonte:
http://marieclaire.globo.com/edic/ed112/rep_casamento.htm
| REGRAS DE NOIVADO Casamentos arranjados ainda acontecem em muitos lugares. Cada cultura tem seus próprios métodos BANGLADESH: nas áreas rurais, futuras noivas ainda são levadas à força. Nas cidades, apesar de o casamento arranjado ainda ser regra, uma mulher pode rejeitar um homem - se ela conseguir agüentar a pressão da família. CORÉIA: no passado, as famílias forçavam os filhos a se casarem. Hoje só apresentam os jovens e esperam que a natureza siga seu rumo. E, como cada vez mais mulheres trabalham fora, os casamentos por amor estão se tornando mais comuns. GRÉCIA: o costume é cultural, não religioso. Hoje em dia os casamentos arranjados são raros. ÍNDIA: estima-se que 90% dos casamentos sejam arranjados. Mas os pais acham pares para seus filhos de maneiras cada vez mais modernas - jornais e cartórios trazem anúncios classificados. PAQUISTÃO: nas áreas rurais, a primeira vez que a noiva vê seu futuro marido costuma ser no próprio dia do casamento. Nas cidades, o processo é um pouco mais flexível - a mulher é obrigada a se submeter a um casamento arranjado, mas pode rejeitar um pretendente que considere particularmente repugnante. |

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